Christina Block é acusada de contratar uma equipe israelense para retirar os filhos da casa do ex-marido, na Dinamarca; investigação também levou à prisão de ex-chefe da inteligência alemã

Um julgamento que envolve uma das famílias empresariais mais conhecidas da Alemanha ganhou novos desdobramentos após a prisão de um ex-chefe do serviço de inteligência do país. A empresária Christina Block, herdeira da rede de restaurantes Block House, é acusada de participar do planejamento do sequestro de dois de seus filhos, em meio a uma longa disputa judicial pela guarda das crianças com o ex-marido.

O caso, que tramita em um tribunal de segurança máxima em Hamburgo, também envolve suspeitas de participação de ex-agentes de inteligência e possíveis crimes de espionagem.

Segundo a acusação, Christina teria contratado uma empresa israelense de segurança para retirar as crianças da residência do pai, Stephan Hensel, na Dinamarca, durante as comemorações do Ano-Novo de 2023 para 2024.

A empresária nega qualquer envolvimento no planejamento da operação e afirma que desconhecia a existência de um plano para levar os filhos à força de volta à Alemanha.

Sequestro teria ocorrido durante comemoração de Ano-Novo

De acordo com os promotores, homens ligados à equipe de segurança abordaram Stephan Hensel enquanto ele assistia a uma queima de fogos com os filhos, então com 10 e 13 anos.

O pai teria sido agredido, enquanto as crianças foram colocadas à força em um veículo. Durante o trajeto em direção à Alemanha, os suspeitos teriam trocado de carro, amarrado as mãos da menina e colocado fita adesiva na boca dos menores.

Posteriormente, o grupo teria utilizado um motorhome para transportar as crianças até o estado alemão de Baden-Württemberg, onde elas permaneceram contra a própria vontade até 2 de janeiro de 2024.

Na ocasião, Christina Block teria buscado os filhos e os levado para sua residência em Hamburgo.

A acusação aponta que a operação foi executada por um israelense identificado como Jonathan G., de 36 anos, com a participação de outras cinco pessoas.

Empresária e outros seis envolvidos respondem à Justiça

O julgamento começou em julho de 2025 e reúne sete acusados.

Christina Block, o advogado da família Andreas Costard e Jonathan G. respondem por acusações relacionadas ao sequestro de menores, lesão corporal grave e cárcere privado.

O companheiro da empresária, Gerhard Delling, conhecido por sua atuação como apresentador esportivo na televisão alemã, e outras três pessoas são acusados de cumplicidade.

A maioria dos réus nega envolvimento em atividades criminosas. Jonathan G., entretanto, reconheceu sua participação na operação, mas afirmou que acreditava estar realizando uma missão de resgate.

Durante o julgamento, Christina classificou o episódio como uma catástrofe e declarou que jamais desejou que seus filhos passassem por uma situação semelhante.

Disputa pela guarda das crianças começou anos antes

O conflito familiar teve início após a separação de Christina Block e Stephan Hensel.

Inicialmente, os quatro filhos do casal permaneceram com a mãe, em Hamburgo. Posteriormente, Hensel mudou-se para a Dinamarca, onde recebia visitas regulares das crianças.

Em 2021, os dois filhos mais novos viajaram para visitar o pai, mas não retornaram à Alemanha na data combinada.

A Justiça de Hamburgo reconheceu o direito de Christina à guarda dos menores e determinou o retorno deles. Entretanto, em fevereiro de 2023, um tribunal dinamarquês decidiu que as crianças não poderiam ser retiradas do país, apesar de reconhecer irregularidades na permanência delas em território dinamarquês.

Hensel também passou a responder a um processo por sequestro de menores, iniciado em maio de 2023.

O ex-marido acusa Christina de comportamento violento contra os filhos, alegação rejeitada pela empresária. Ela, por sua vez, sustenta que o antigo companheiro agia por vingança.

Ex-agentes de inteligência aparecem nas investigações

A investigação ganhou repercussão ainda maior com informações sobre a possível participação de pessoas ligadas aos serviços secretos.

David Barkay, apontado como responsável pela equipe israelense de segurança, afirmou em depoimento que Christina Block e Andreas Costard tinham conhecimento da operação destinada a trazer as crianças de volta à Alemanha.

Barkay, descrito por uma testemunha como ex-integrante do Mossad, serviço de inteligência de Israel, declarou que não compartilhou todos os detalhes da ação com os envolvidos.

A defesa da empresária contesta essa versão e sustenta que os integrantes da equipe israelense agiram por iniciativa própria.

Ex-chefe da inteligência alemã é preso por suspeita de espionagem

Outro personagem que passou a ser investigado é August Hanning, de 80 anos, ex-chefe do serviço de inteligência alemão.

Ele é suspeito de ter participado da organização de uma tentativa anterior de retirar as crianças da Dinamarca, em 2022. Segundo os investigadores, Hanning teria ajudado a contratar profissionais de segurança para a operação.

O ex-dirigente nega as acusações e não integra o processo criminal em andamento contra Christina Block.

Durante buscas realizadas em sua residência, investigadores encontraram indícios de um possível esquema envolvendo a aquisição de aproximadamente 2 mil documentos e o suposto repasse de informações sigilosas a potências estrangeiras.

As descobertas resultaram na prisão de Hanning, em outubro de 2026, sob suspeita de espionagem e crimes contra a segurança do Estado.

As autoridades não divulgaram quais países teriam recebido as informações. A defesa do ex-chefe de inteligência considera as acusações infundadas e afirma que ele está sendo alvo de perseguição injusta.

Embora a investigação por espionagem seja independente do julgamento da empresária, a descoberta dos documentos ampliou a repercussão do caso na Alemanha.

Julgamento segue sem conclusão

O processo contra Christina Block já passou por diversos adiamentos desde seu início, em julho de 2025.

A suspensão mais recente, prevista para durar duas semanas, ocorreu após o não comparecimento de uma testemunha, atual esposa de Stephan Hensel.

O caso continua despertando grande interesse da imprensa alemã por envolver uma família milionária, uma disputa internacional pela guarda de crianças e suspeitas de atuação de antigos integrantes dos serviços de inteligência.

Até a conclusão do julgamento, Christina Block e os demais acusados permanecem amparados pela presunção de inocência.

Da Redação do Mais55 News | Com informações da BBC News