Governo francês tenta conter manifestações que já duram três semanas, mobilizam milhares de estudantes e cobram mais investimentos na educação pública
O governo da França anunciou a disponibilização de 3 mil professores substitutos para escolas de ensino médio, em uma tentativa de atender parte das reivindicações dos estudantes que realizam manifestações em diferentes regiões do país. A medida representa a primeira concessão concreta das autoridades francesas desde o início da mobilização, que já dura três semanas.
O anúncio foi feito pelo ministro da Educação, Edouard Geffray, durante uma entrevista à televisão na noite de quinta-feira (8), após mais um dia de protestos, marcado por confrontos entre manifestantes e forças policiais.
Os estudantes reivindicam principalmente o aumento dos investimentos na educação secundária, a melhoria das condições de ensino e a contratação de profissionais para suprir a falta de professores nas escolas.
Segundo dados divulgados pelo governo francês, 6.877 pessoas foram presas desde o início das manifestações, sendo 86% menores de 18 anos.
Manifestações reúnem mais de 70 mil pessoas
Na quinta-feira (8), durante o chamado quarto ato do movimento estudantil, aproximadamente 71 mil pessoas participaram de manifestações em diferentes cidades francesas.
Somente em Paris, cerca de 24 mil manifestantes se concentraram na região da Bastilha, um dos principais pontos históricos e simbólicos da capital.
Em alguns locais, os protestos terminaram em confrontos. A polícia utilizou gás lacrimogêneo para dispersar grupos que lançaram paralelepípedos e artefatos pirotécnicos contra os agentes.
Na cidade de Bordeaux, manifestantes invadiram e saquearam um liceu, denominação utilizada na França para instituições de ensino destinadas principalmente a adolescentes de 15 a 18 anos. Já em Marselha, um vice-diretor de escola foi agredido.
Nesta sexta-feira (9), aproximadamente 140 dos 3,5 mil liceus franceses permaneceram total ou parcialmente fechados. O número representa uma redução significativa em comparação com os dias anteriores.
Apesar disso, organizações estudantis convocaram uma nova jornada de manifestações para terça-feira (13).
Governo promete reforçar escolas com maior falta de professores
De acordo com o ministro Edouard Geffray, os 3 mil professores substitutos serão direcionados prioritariamente a cerca de 500 escolas identificadas como as mais afetadas pela ausência de profissionais.
A distribuição dos docentes deverá ser facilitada por um novo sistema digital disponibilizado pelo Ministério da Educação.
A falta de professores substitutos é considerada um problema recorrente no sistema educacional francês, provocando a perda de horas de aula quando profissionais titulares precisam se ausentar.
Parte das instituições mais afetadas está localizada em regiões periféricas de grandes cidades, onde há maior vulnerabilidade social e concentração de famílias de origem imigrante.
O governo também anunciou a ampliação dos recursos destinados a um programa que remunera professores interessados em realizar horas extras para suprir a ausência de colegas.
Além disso, Geffray afirmou que as reivindicações estudantis serão consideradas nas discussões sobre o orçamento da educação para 2027.
Estudantes consideram medidas insuficientes
Apesar dos anúncios, representantes das organizações estudantis reagiram com cautela e afirmaram que as medidas ainda estão distantes das mudanças estruturais reivindicadas pelo movimento.
Nathanaël Combary, representante do Renouveau Lycéen, uma das principais organizações de estudantes secundaristas da França, reconheceu que parte das demandas foi contemplada, mas destacou a necessidade de resultados concretos.
Já Sabrine Kharbach, representante da União dos Estudantes, afirmou que as mobilizações continuarão enquanto o governo não apresentar um plano de investimentos de 10 bilhões de euros, aproximadamente R$ 56 bilhões, para o setor educacional.
A exigência evidencia a distância entre as expectativas dos manifestantes e as medidas anunciadas pelas autoridades francesas.
Protestos provocam divergências políticas
A mobilização estudantil também intensificou os debates entre lideranças políticas francesas.
O líder de esquerda Jean-Luc Mélenchon, ligado ao partido França Insubmissa, manifestou apoio aos estudantes e afirmou, em publicação na rede social X, que os manifestantes haviam retomado simbolicamente a Bastilha.
Por outro lado, representantes da extrema direita criticaram a decisão do governo de anunciar concessões após episódios de violência.
O deputado Laurent Jacobelli, do partido Reagrupamento Nacional, argumentou que a resposta das autoridades poderia transmitir a mensagem de que atos violentos resultam em benefícios políticos.
França enfrenta cenário de crescente tensão social
As manifestações estudantis acontecem em um momento de dificuldades econômicas e aumento das tensões sociais na França.
Além das reivindicações na educação, o país enfrenta insatisfação relacionada aos preços dos combustíveis e às condições enfrentadas pelos trabalhadores do setor agrícola.
Uma nova mobilização dos chamados coletes amarelos está prevista para 17 de outubro, retomando um movimento que ganhou projeção internacional em 2018, quando protestos levaram o governo francês a suspender um aumento de impostos sobre combustíveis.
O cenário também é influenciado pela aproximação das eleições presidenciais, previstas para 2027, que ampliam as disputas entre diferentes correntes políticas.
Diante das pressões sociais e das dificuldades fiscais, o governo francês busca equilibrar as reivindicações por novos investimentos públicos com a necessidade de controlar o endividamento do país.
A expectativa das autoridades é de que o início do recesso escolar, previsto para a próxima semana, e a chegada de temperaturas mais baixas contribuam para reduzir a intensidade das manifestações.
Entretanto, as organizações estudantis mantêm a mobilização e cobram medidas mais abrangentes para melhorar as condições da educação pública francesa.
Da Redação do Mais55



