Trabalho do Instituto Baleia Jubarte contribui para a recuperação da espécie, impulsiona pesquisas científicas e fortalece ações de preservação da biodiversidade marinha brasileira

A população de baleias-jubarte que frequenta o litoral brasileiro passou de aproximadamente 1,5 mil para 35 mil indivíduos, resultado de décadas de esforços voltados à conservação da espécie. O Instituto Baleia Jubarte desempenhou papel fundamental nesse processo, desenvolvendo pesquisas científicas, monitorando os animais e contribuindo para a formulação de políticas de proteção ambiental.

Um dos principais locais de acompanhamento desses mamíferos marinhos é o arquipélago dos Abrolhos, no litoral da Bahia. Todos os anos, as jubartes deixam as águas geladas da Antártica e percorrem milhares de quilômetros até a região brasileira, onde encontram condições favoráveis para o acasalamento e o nascimento dos filhotes.

Durante as expedições científicas, pesquisadores realizam registros fotográficos, coletam amostras biológicas e observam o comportamento dos animais. As informações permitem acompanhar a recuperação populacional, identificar indivíduos e compreender os desafios enfrentados pela espécie.

Pesquisas científicas ajudam a compreender a migração das baleias

O Instituto Baleia Jubarte se consolidou como uma das principais referências brasileiras na produção de conhecimento científico sobre a espécie. O trabalho ganhou importância após décadas de exploração comercial, período em que a caça provocou uma redução expressiva das populações e deixou lacunas no conhecimento sobre esses animais.

O médico veterinário Milton Marcondes, diretor de Pesquisas do instituto, participa das ações de preservação desde a década de 1980, quando movimentos ambientalistas pressionaram pela proibição da caça às baleias no Brasil.

Ao longo de sua trajetória, a instituição recebeu mais de 700 estudantes de graduação em programas de estágio, participou da conclusão de aproximadamente 60 projetos de mestrado e doutorado e contribuiu para a publicação de mais de 130 artigos científicos.

Uma das descobertas mais relevantes ocorreu em 2006, quando pesquisadores compararam fotografias das caudas de baleias registradas no Brasil e nas ilhas Geórgia do Sul e Sandwich do Sul, na região antártica.

A identificação de correspondências entre os animais ajudou a confirmar a conexão migratória entre as áreas. Enquanto o litoral brasileiro funciona como região de reprodução, as águas próximas às ilhas austrais são utilizadas para alimentação.

Mudanças climáticas e atividades humanas preocupam pesquisadores

Apesar dos avanços na recuperação da população, especialistas alertam para ameaças relacionadas às mudanças climáticas e à intensificação das atividades humanas nos oceanos.

Pesquisadores investigam como alterações ambientais podem afetar a alimentação, a saúde e o comportamento das baleias-jubarte.

A bióloga Laura Aguiar, mestranda da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), utiliza imagens captadas por drones desde 2018 para analisar características físicas dos animais, incluindo comprimento, peso e condições corporais.

Outra pesquisadora da UFSC, Bruna Baleeiro, trabalha com registros fotográficos acumulados durante mais de três décadas para atualizar estimativas populacionais e verificar a frequência com que determinados indivíduos retornam ao litoral brasileiro.

Os estudos também procuram identificar possíveis impactos provocados pela navegação, exploração sísmica, instalação de usinas eólicas e atividades turísticas.

Comportamento de proteção dos filhotes chama atenção

Entre as descobertas científicas recentes está o registro de um comportamento de proteção das fêmeas em relação aos filhotes.

Durante pesquisa de doutorado na Universidade Estadual de Santa Cruz, em Ilhéus, a pesquisadora Bianca Righi identificou, por meio de imagens de drones, uma fêmea que utilizava as nadadeiras peitorais para proteger seu filhote da aproximação de machos interessados no acasalamento.

Nas imagens, a baleia aparece posicionando o filhote junto ao corpo e nadando de costas para mantê-lo protegido.

O registro contribui para ampliar o conhecimento sobre as relações maternas e as estratégias de sobrevivência da espécie.

Instituto também contribui para políticas ambientais

Além das atividades científicas, o Instituto Baleia Jubarte participa da elaboração de estratégias de conservação marinha e oferece orientações técnicas para empresas interessadas em reduzir impactos ambientais.

Um exemplo é a alteração da rota de embarcações que utilizam o Terminal Aquaviário de São Sebastião, em São Paulo. A mudança foi realizada com base em informações sobre a migração das baleias, permitindo reduzir a interferência do transporte marítimo nos deslocamentos dos animais.

A Petrobras mantém apoio financeiro às atividades do instituto desde sua criação. Para o ciclo atual de quatro anos, foram destinados aproximadamente R$ 30 milhões ao projeto.

O diretor executivo da instituição, Eduardo Camargo, destaca que o trabalho desenvolvido ultrapassa os interesses científicos e representa uma contribuição direta à sociedade.

Segundo ele, o conhecimento acumulado durante décadas permite orientar decisões relacionadas à preservação ambiental e ao uso sustentável dos recursos marinhos.

A recuperação das baleias-jubarte no Brasil demonstra a importância da continuidade das políticas de conservação, dos investimentos em ciência e da cooperação entre pesquisadores, instituições públicas e iniciativa privada.

Embora os resultados sejam expressivos, especialistas ressaltam que o monitoramento permanentcontinua sendo essencial para garantir a sobrevivência da espécie diante das transformações ambientais.

Fonte: Informações do Instituto Baleia Jubarte e depoimentos de pesquisadores e representantes das instituições citadas na reportagem original.

Da Redação do Mais55