Medida provisória suspende novas apostas e determina retirada dos sites e aplicativos do ar a partir de 6 de outubro; valores não resgatados serão devolvidos aos usuários

O governo federal anunciou na sexta-feira (25) uma medida provisória (MP) que proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas e jogos on-line no Brasil, conhecidos como bets.

Com a publicação da MP, as plataformas ficam proibidas de receber novos depósitos e apostas. As empresas autorizadas terão um período de transição para encerrar as operações no país.

Os apostadores poderão retirar voluntariamente os valores disponíveis nas plataformas até as 23h59 do dia 5 de outubro. Quem não fizer o resgate nesse prazo terá o saldo devolvido por meio dos bancos que operam com as empresas de apostas.

Os sites e aplicativos das bets deverão sair do ar a partir de 6 de outubro.

Como será a devolução dos valores

Entre os dias 7 e 8 de outubro, as empresas deverão informar às instituições financeiras os valores mantidos nas contas dos apostadores, vinculados aos respectivos CPFs.

A devolução dos saldos ocorrerá entre 9 e 14 de outubro, por meio das instituições financeiras. Caso haja algum impedimento para o pagamento, a Caixa Econômica Federal poderá intermediar a devolução dos recursos a partir de 14 de outubro.

Fiscalização contra plataformas ilegais

A medida também prevê o reforço das ações de fiscalização contra plataformas ilegais e das investigações sobre movimentações financeiras relacionadas às apostas.

Entre as medidas previstas estão a identificação e derrubada de sites clandestinos, o bloqueio de contas bancárias utilizadas irregularmente para apostas e o compartilhamento de informações entre órgãos públicos.

O Ministério da Justiça e Segurança Pública e a Polícia Federal também deverão receber reforço de estrutura para atuar na fiscalização.

O que muda para os apostadores

Com a entrada em vigor da medida provisória:

  • novos depósitos nas plataformas ficam proibidos imediatamente;
  • o apostador terá até 5 de outubro para retirar voluntariamente o saldo;
  • sites e aplicativos deverão sair do ar a partir de 6 de outubro;
  • entre 7 e 8 de outubro, as empresas informarão aos bancos os valores vinculados aos CPFs;
  • entre 9 e 14 de outubro, os bancos deverão realizar a devolução dos saldos;
  • a Caixa poderá intermediar os pagamentos em casos de impedimento.

Lula diz que medida é necessária

Após assinar a medida provisória, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a decisão foi necessária diante dos impactos associados ao vício em apostas on-line.

O presidente classificou as bets como um “câncer” e afirmou que é preciso interromper o avanço do problema. Segundo Lula, famílias estão enfrentando dificuldades financeiras e dívidas relacionadas à ludopatia, nome dado ao transtorno relacionado ao jogo.

Lula também comparou os efeitos do vício em apostas ao consumo de crack e relatou ter ouvido pessoas afetadas pelo problema antes de tomar a decisão.

O presidente afirmou ainda que o governo pretende impedir que recursos destinados a despesas básicas das famílias sejam utilizados em apostas.

Impacto no futebol

A presença das bets como patrocinadoras de clubes de futebol também foi mencionada pelo presidente.

Lula afirmou que clubes brasileiros conquistaram títulos nacionais e internacionais antes da expansão do mercado de apostas on-line e questionou a dependência das equipes em relação aos recursos provenientes dessas empresas.

Segundo o presidente, ele foi informado de que os patrocínios de bets representam entre 6% e 7% do orçamento de alguns clubes.

Histórico das apostas on-line no Brasil

As apostas de quota fixa foram autorizadas no Brasil pela Lei nº 13.756, de 12 de dezembro de 2018. A legislação previa prazo para regulamentação, que poderia ser prorrogado, mas as regras para o funcionamento do setor só foram estabelecidas posteriormente.

A regulamentação ocorreu em dezembro de 2023, estabelecendo critérios para as empresas autorizadas a operar no país.

Desde então, pesquisas e estudos passaram a apontar impactos das apostas sobre o orçamento das famílias e a saúde dos usuários.

Segundo dados do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz), as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões para as bets em 2025.

Uma pesquisa citada pelo governo também aponta que 20,4% dos estudantes dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio afirmam já ter feito apostas on-line. Entre os alunos do 3º ano do ensino médio, o percentual chega a 49,7%.

Saúde mental

O Ministério da Saúde também aponta impactos sociais e econômicos relacionados aos problemas decorrentes do jogo.

Entre os efeitos associados estão depressão, perda de qualidade de vida, problemas financeiros, perda de moradia e outros custos sociais relacionados à dependência em apostas.

Profissionais de saúde mental defendem medidas de prevenção e atenção aos casos de dependência. Entre os sinais que podem indicar problemas estão o isolamento social, mudanças significativas de comportamento, aumento do consumo de álcool e dificuldades financeiras relacionadas ao jogo.

A ludopatia está associada a alterações nos mecanismos de recompensa do cérebro. A expectativa de ganhar pode estimular a liberação de dopamina, reforçando o comportamento de apostar e aumentando a dificuldade de interromper o ciclo de jogo.

Com a medida provisória, o governo pretende encerrar a operação das bets no país e ampliar o combate às plataformas ilegais, além de assegurar a devolução dos valores que permanecerem nas contas dos apostadores.

Da Redação do Mais55