Mais de 246 mil pessoas se deslocam diariamente para Brasília; parte delas transfere o título eleitoral, alterando a representatividade e o debate político no Distrito Federal

O intenso fluxo diário entre cidades do Entorno de Goiás e o Distrito Federal vai além da mobilidade urbana e já impacta diretamente a dinâmica política da capital. Dados da Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios Ampliada (PDAD-A) de 2024 indicam que mais de 246 mil pessoas atravessam diariamente a divisa rumo a Brasília para trabalhar ou estudar — e parte significativa desse público também opta por votar no DF.

Esse movimento revela uma mudança de pertencimento. Ao passar a maior parte do tempo na capital, muitos moradores do Entorno passam a se identificar mais com o DF do que com seus municípios de origem. Como consequência, cresce o número de transferências de título de eleitor. Segundo o Tribunal Regional Eleitoral do DF (TRE-DF), mais de 550 mil eleitores passaram a estar aptos a votar na capital nas últimas duas décadas.

Na prática, essa realidade se reflete em histórias individuais. Francisco Lima, de 59 anos, mora há um ano em Valparaíso de Goiás, mas mantém seu título eleitoral em Santa Maria, no DF. Para ele, a escolha está ligada ao futuro. “Pretendo trabalhar aqui. Me sinto mais impactado pelas políticas públicas do DF”, afirma.

Já Jonas Vinícius, de 26 anos, morador de Luziânia, decidiu formalizar essa ligação. Após uma década trabalhando no Lago Norte como garçom, transferiu seu título para Brasília. “Moro em Goiás pelo custo de vida, mas é no DF que me sinto representado politicamente”, explica.

Há também quem ainda não oficializou a mudança, mas já se vê mais conectado à capital. É o caso de Ediniuza Francisca da Silva, de 52 anos, moradora de Valparaíso e trabalhadora do DF há quase 30 anos. “Minha vontade é transferir o título, porque minha vida acontece lá”, diz.

Situação semelhante vive Rafaela da Costa, de 41 anos, moradora de Águas Lindas de Goiás. Assistente social em Brasília, ela mantém o título no DF devido ao uso constante de serviços públicos na capital. “Passo o dia aqui, uso saúde, enfrento trânsito. Me sinto mais representada”, relata.

Fluxo que redefine relações

Segundo o Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF), cerca de 201 mil pessoas se deslocam diariamente para o DF por trabalho — o equivalente a 40,6% da população ocupada da Periferia Metropolitana. Para estudo, são aproximadamente 44 mil pessoas. Juntos, esses grupos formam o contingente de 246 mil deslocamentos diários.

Cidades como Águas Lindas, Valparaíso, Novo Gama, Luziânia e Planaltina (GO) concentram a maior parte desse fluxo. De acordo com especialistas, essa dinâmica revela uma relação de dependência e complementaridade entre o Entorno e o DF, especialmente no acesso a emprego, educação e serviços públicos.

Impactos na “geografia do voto”

Para o professor de políticas públicas do Ibmec Brasília, Jackson De Toni, esse cenário torna mais complexa a chamada “geografia do voto”. Ele destaca que cerca de 10% do eleitorado do DF pode ser composto por moradores do Entorno.

“Essas pessoas deixam de influenciar diretamente decisões políticas em Goiás, como a escolha de prefeitos e deputados estaduais, que impactam suas cidades. Ao mesmo tempo, ganham peso nas eleições do DF, onde vivem grande parte da rotina”, analisa.

O especialista lembra que esse fenômeno já teve impacto concreto em eleições passadas. Entre 2006 e 2010, mais de 32 mil eleitores do Entorno transferiram seus títulos para o DF — número superior à diferença de votos que definiu uma eleição para governador no período.

Crescimento e desafios

O pesquisador Robson Carvalho, da Universidade de Brasília (UnB), aponta que o crescimento do eleitorado do DF nas últimas décadas é comparável à migração de uma capital inteira, como Natal. Para ele, o fenômeno está ligado à busca por melhores oportunidades e infraestrutura.

Apesar disso, Carvalho ressalta que o ideal é que o eleitor vote onde vive e conhece a realidade local. “Isso tende a gerar escolhas mais conscientes e alinhadas às necessidades da população”, afirma.

Ele também alerta para práticas oportunistas, como a mudança de domicílio eleitoral por parte de candidatos sem vínculo com a região. “Isso compromete a legitimidade da representação política”, critica.

Debate em expansão

Com o aumento do número de eleitores vindos do Entorno, temas como mobilidade, transporte público e acesso a serviços ganham ainda mais relevância nas campanhas do DF. Especialistas apontam que nenhum candidato competitivo pode ignorar essa parcela do eleitorado.

Enquanto isso, o fenômeno segue evidenciando uma realidade já consolidada: embora separados por uma divisa geográfica, Entorno e Distrito Federal compartilham cada vez mais uma mesma dinâmica social, econômica — e agora, também política.

Da Redação do Mais55|*Com as informações do Correio Braziliense