Criador da Califórnia aposta no fox collie, cão de origem escocesa que combina inteligência, lealdade e temperamento tranquilo, para conquistar famílias e transformar a relação entre humanos e animais

Um produtor de vinhos do norte da Califórnia, nos Estados Unidos, está chamando a atenção por um projeto inusitado: recuperar uma antiga linhagem de cães pastores e transformá-la em uma opção de companhia para famílias de diferentes partes do mundo. Andy DuVigneaud, morador da pequena comunidade de Boonville, acredita ter encontrado o que considera o “melhor cachorro do mundo”.

O animal, conhecido como fox collie, reúne características que, segundo o criador, são ideais para a vida moderna. Inteligente, leal, ativo e, ao mesmo tempo, tranquilo, o cão seria capaz de acompanhar seus tutores em atividades físicas e também passar horas descansando dentro de casa.

Apesar do entusiasmo, o fox collie ainda não é reconhecido oficialmente como uma raça. DuVigneaud trabalha para mudar essa realidade por meio de cruzamentos seletivos e da preservação de características de antigos cães pastores.

Uma história que começou na Escócia

A origem da linhagem está relacionada aos cães utilizados para pastorear ovelhas nas Terras Altas da Escócia. No século XIX, esses animais chegaram à Califórnia pelas mãos do imigrante escocês Alexander McNab, que desembarcou nos Estados Unidos em 1866.

Insatisfeito com os cães empregados nas fazendas da região, McNab importou exemplares de Scotch Collies para desenvolver animais mais eficientes no trabalho rural.

Com o passar dos anos, cruzamentos com outras linhagens deram origem ao pastor McNab, conhecido pela resistência física, inteligência e capacidade de conduzir rebanhos.

Entretanto, alguns exemplares antigos apresentavam características diferentes das encontradas nos cães atuais, incluindo porte menor, pelagem curta e comportamento mais tranquilo.

Foi justamente esse perfil que despertou o interesse de DuVigneaud.

Da pandemia ao nascimento do fox collie

Criado em uma região marcada por vinhedos, pomares e propriedades rurais, DuVigneaud conviveu desde a infância com histórias sobre os antigos cães pastores da Califórnia.

Durante a pandemia de Covid-19, ele adquiriu uma cadela McNab chamada JJ. O animal apresentava características semelhantes às dos cães que conhecia por meio dos relatos de antigos fazendeiros.

A experiência despertou seu interesse pela recuperação daquela linhagem.

Após pesquisar a história dos Scotch Collies e encontrar outro cão com características semelhantes, iniciou um programa de cruzamentos seletivos que deu origem aos animais que passou a chamar de fox collies.

Desde 2020, o criador realizou 16 ninhadas. O trabalho inclui testes de DNA para identificar possíveis problemas genéticos e a escolha de reprodutores com base principalmente no porte físico e no temperamento.

Inteligência e comportamento conquistam tutores

Uma das principais características defendidas pelo produtor é a capacidade de adaptação dos fox collies.

Enquanto algumas raças de pastoreio exigem atividades físicas intensas e estímulos constantes, DuVigneaud afirma que seus cães conseguem alternar momentos de grande disposição com períodos de descanso.

Essa combinação tem despertado o interesse de pessoas que procuram animais inteligentes, mas que também consigam se adaptar à rotina familiar.

Um dos compradores foi Joshua Korbel, engenheiro de som de 43 anos, que conheceu os filhotes ao visitar uma loja de vinhos em Boonville.

Encantado pelos animais, passou a frequentar o estabelecimento até receber a oportunidade de escolher uma filhote.

Ele levou para casa uma fêmea marrom, batizada de Morena.

Segundo Korbel, a cadela demonstrou facilidade de aprendizagem desde os primeiros meses de vida. Aos quatro meses, já havia aprendido hábitos de higiene e apresentava comportamento tranquilo durante passeios.

O tutor considera Morena a melhor cachorra que já teve.

Mais de 400 interessados nos animais

A popularidade dos fox collies começou a crescer por meio das redes sociais e de visitantes que conhecem os filhotes na propriedade do produtor.

De acordo com DuVigneaud, mais de 400 pessoas já demonstraram interesse sério em adquirir um exemplar.

A seleção dos futuros tutores, porém, não segue uma fila convencional.

O criador mantém uma espécie de cadastro com informações sobre os interessados, incluindo condições de moradia, rotina familiar e ambiente disponível para os animais.

Alguns candidatos recebem avaliações especiais conforme o perfil apresentado.

Atualmente, cada filhote é comercializado por aproximadamente US$ 1 mil.

DuVigneaud afirma que seu principal objetivo não é financeiro, mas ampliar a presença desses cães e preservar características que considera importantes para a convivência com os seres humanos.

Animais de companhia em um mundo cada vez mais tecnológico

O projeto também está relacionado à visão do produtor sobre as mudanças na sociedade.

Durante milhares de anos, os cães desempenharam funções práticas, como proteger propriedades, conduzir rebanhos e auxiliar na caça. Com a modernização das atividades humanas, muitas dessas tarefas perderam espaço.

Para o antropólogo David Howe, os cães passaram a ocupar um papel cada vez mais importante como animais de companhia.

DuVigneaud acredita que essa relação poderá ganhar ainda mais relevância diante do avanço da inteligência artificial e da automação, tecnologias que estão transformando o mercado de trabalho e a rotina das pessoas.

Na avaliação do criador, os animais podem oferecer companhia, afeto e um senso de propósito em uma sociedade marcada pelo isolamento e pela redução das interações pessoais.

Projeto também desperta questionamentos

Apesar da repercussão positiva, a iniciativa enfrenta críticas relacionadas à criação seletiva de cães, especialmente diante do grande número de animais abandonados que aguardam adoção em abrigos.

DuVigneaud defende seu trabalho e afirma adotar cuidados para reduzir riscos genéticos, além de avaliar criteriosamente as condições oferecidas pelos interessados.

Por enquanto, ele é o único criador de fox collies dentro do projeto.

Mesmo com os desafios, o produtor mantém o objetivo de expandir a linhagem e conquistar novos tutores ao redor do mundo.

Para ele, o projeto representa mais do que a criação de uma nova raça: é uma tentativa de fortalecer a conexão entre pessoas e animais em tempos de profundas transformações sociais.

“Estou tentando mudar o mundo”, afirma DuVigneaud.

Da Redação do Mais55