Advogada formada na UCV, ex-chanceler e vice-presidente desde 2018, Delcy Rodríguez assume o comando do país em meio a pressões internacionais, sanções dos EUA e disputa pelo controle do petróleo venezuelano
Delcy Eloína Rodríguez Gómez, de 56 anos, assumiu interinamente a Presidência da Venezuela após o sequestro do presidente Nicolás Maduro. Figura central do chavismo, Delcy é considerada uma das políticas mais influentes do país e integra, há décadas, o núcleo duro do projeto político iniciado por Hugo Chávez.
Formada em Direito pela Universidade Central da Venezuela (UCV), Delcy possui pós-graduação em Direito Social pela Universidade de Paris e mestrado em Política Social pela Universidade de Birkbeck, em Londres. Ela foi escolhida por Maduro para ocupar a Vice-Presidência em 2018 — cargo que, no sistema político venezuelano, é indicado diretamente pelo presidente, e não eleito em chapa, como ocorre no Brasil.
Além da vice-presidência, Delcy acumulava funções estratégicas no governo. Desde 2024, comandava o Ministério da Economia e também a PDVSA, estatal petrolífera venezuelana, considerada a principal empresa do país. Ela assumiu a presidência da companhia após a prisão de parte da diretoria, investigada por corrupção.
Trajetória no chavismo
Delcy Rodríguez construiu sua carreira política ao longo do processo da Revolução Bolivariana. No início do governo de Hugo Chávez, ocupou cargos ligados diretamente à Presidência da República, como chefe de gabinete, em 2006. Após um período fora do centro do poder, retornou ao protagonismo nacional em 2013, quando foi nomeada ministra da Comunicação e Informação, já no primeiro mandato de Nicolás Maduro.
Entre 2014 e 2017, exerceu o cargo de ministra das Relações Exteriores. Nesse período, foi responsável por conduzir a saída da Venezuela da Organização dos Estados Americanos (OEA), acusando o então secretário-geral do órgão, Luis Almagro, de atuar em alinhamento com os Estados Unidos para desestabilizar o país.
Em 2017 e 2018, Delcy presidiu a Assembleia Nacional Constituinte (ANC), criada após o impasse institucional entre o governo Maduro e a Assembleia Nacional, então controlada pela oposição. A instalação da ANC marcou um período de maior isolamento internacional da Venezuela e coincidiu com o início do embargo financeiro e, posteriormente, comercial imposto ao país.
Origem política e familiar
Delcy Rodríguez é filha de Jorge Antonio Rodríguez, militante marxista da extinta Liga Socialista, torturado e morto em 1976 sob custódia da Direção de Serviços de Inteligência Policial (Disip), durante o regime conhecido como Punto Fijo. À época, Delcy tinha apenas 10 anos. O episódio teve ampla repercussão nacional e é frequentemente citado como um marco formativo de sua trajetória política.
Ela é irmã de Jorge Rodríguez, atual presidente da Assembleia Nacional da Venezuela e ex-vice-presidente do país. Considerado um dos principais estrategistas do chavismo, Jorge também foi ministro da Comunicação e figura-chave em momentos decisivos do governo bolivariano.
Reconhecimento acadêmico e político
Para a professora Carla Ferreira, do Departamento de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Delcy Rodríguez sempre ocupou posições centrais dentro do chavismo. Segundo a pesquisadora, até assumir interinamente a Presidência, Delcy era a segunda pessoa mais poderosa do governo venezuelano.
“Ela tem uma trajetória muito sólida. Estamos diante de um quadro político e teórico do mais alto nível, formada na melhor universidade da Venezuela e em instituições de excelência na Europa”, avalia a professora, que é doutora em história política venezuelana e estudiosa do processo bolivariano liderado por Hugo Chávez.
Pressões internacionais e ameaças dos EUA
A posse interina de Delcy ocorre em meio a forte pressão internacional. No último sábado (4), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fez declarações públicas ameaçando a nova chefe de Estado, exigindo acesso irrestrito ao petróleo e aos recursos naturais da Venezuela.
“Se ela não fizer o que é certo, pagará um preço muito alto, provavelmente maior do que Maduro”, afirmou Trump. Em outro momento, disse a jornalistas que Delcy estaria disposta a aceitar as exigências da Casa Branca, declaração rechaçada por analistas e pelo governo venezuelano.
Em pronunciamento à nação, Delcy Rodríguez afirmou que a Venezuela “jamais será colônia de qualquer império” e reforçou o compromisso com a soberania nacional.
Segundo Carla Ferreira, a narrativa de que Delcy se submeteria aos interesses de Washington faz parte de uma estratégia de desinformação. “A tentativa é corroer o apoio interno do chavismo, criando a imagem de traição. O povo venezuelano não toleraria isso”, afirma.
Desafios no comando do país
Sancionada pelos Estados Unidos e pela União Europeia, Delcy Rodríguez assume o governo interinamente em um dos momentos mais delicados da história recente da Venezuela. Além da crise econômica prolongada, ela enfrenta o desafio de manter a estabilidade política, administrar as pressões externas e preservar o controle estatal sobre as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo.
Analistas avaliam que, apesar do discurso de abertura ao diálogo, a nova presidente interina deverá manter a linha estratégica adotada por Maduro: negociar concessões limitadas, sem abrir mão do controle da PDVSA e da soberania nacional.
Da Redação do Mais55



