Novos estudos mostram que os felinos que convivem com humanos hoje surgiram no Norte da África e chegaram à Europa e à Ásia muito mais tarde do que se imaginava
A história da domesticação dos gatos — antes de se tornarem ícones da internet e donos soberanos dos lares — acaba de ganhar um novo capítulo. Pesquisas com DNA antigo estão desafiando teorias consideradas consolidadas e revelando que a origem dos felinos domésticos é bem mais recente e complexa do que se acreditava.
Por décadas, arqueólogos sustentaram que a convivência entre humanos e gatos começou há cerca de 9.500 anos no Levante, região do Mediterrâneo oriental. Ali, com o surgimento da agricultura, roedores atraídos por depósitos de grãos teriam aproximado os felinos selvagens das primeiras comunidades humanas. A descoberta de um sepultamento felino em Chipre reforçava essa narrativa.
Mas uma nova análise de genomas antigos e modernos está virando essa história de cabeça para baixo. Segundo dois estudos publicados nesta quinta-feira (27/11), liderados por pesquisadores da Universidade de Oxford, muitos dos ossos atribuídos a gatos domésticos de até 10 mil anos atrás pertenciam, na verdade, a populações selvagens que não deixaram descendentes entre os felinos atuais.
“Quando começamos a comparar esses ossos com o genoma de gatos modernos, percebemos que a narrativa tradicional não se sustentava”, explica o arqueólogo Greger Larson, coautor das pesquisas.
Norte da África: o verdadeiro berço dos gatos domésticos
O estudo europeu, divulgado na revista Science, analisou 87 genomas e revelou que o gato doméstico moderno (Felis catus) descende do gato selvagem africano (Felis lybica lybica). A espécie teria se espalhado pela Europa com a expansão do Império Romano, há cerca de 2.000 anos.
Outro trabalho, publicado na Cell Genomics, analisou fósseis de felinos encontrados na China e concluiu que o gato doméstico só chegou ao país por volta do ano 730, possivelmente através de caravanas da Rota da Seda.
Antes dos gatos domésticos, os chineses conviveram com outro felino
A pesquisa também revelou que, entre 5.400 anos atrás e 150 d.C., o felino que vivia próximo às comunidades agrícolas chinesas não era ancestral dos gatos atuais. Tratava-se do gato-de-bengala (Prionailurus bengalensis), conhecido no folclore local como “tigre caçador de galinhas” por sua tendência a predar aves domésticas.
Essa característica, aliada a mudanças na criação de aves e a períodos de instabilidade climática e política, teria afastado o gato-de-bengala dos assentamentos humanos, levando-o de volta aos habitats naturais.
Egito ainda pode ter sido peça-chave
As novas descobertas reforçam a importância do Norte da África na trajetória dos gatos, e o Egito permanece como um dos possíveis centros de domesticação. Representações de gatos em tumbas, adornados com coleiras e tratados como membros da família, testemunham sua relevância cultural.
Ainda assim, os pesquisadores afirmam que o quebra-cabeça está longe de concluído. A falta de amostras do Norte da África e do Sudoeste Asiático deixa lacunas importantes.
“Os gatos continuam revelando seus segredos lentamente”, resume o biólogo Jonathan Losos. “Precisamos de mais DNA antigo para compreender toda a jornada desses animais tão enigmáticos.”
Da Redação do Mais55



